Tourém da Raia

Memorial da passagem de Miguel Torga por Tourém - Montalegre, em 7 de Abril de 1968.


"Tourém, 7 de Abril de 1968 - A intensidade de certos sentimentos mede-se pelo pudor de que os rodeamos. Quanto menos se exibem, mais fundo latejam. Mas, ao contrário, só na denúncia clamorosa de todos os atentados contra o objecto dos nossos afectos preservamos a sua pureza. A indignação publicamente manifestada é, neste caso, a única prova de fidelidade do coração.


Azoeirado diariamente pelos papagaios do amor acrisolado à pátria, que açaimam, prendem ou liquidam os que duvidam da cantilena e erguem, ofendidos, a voz acusadora, é com inveja que olho os habitantes felizes deste pequenino enclave barrosão, que a grandeza espanhola nunca conseguiu deslumbrar nem devorar.


Sempre que atravesso o istmo que o liga ao corpo da nação, percorro as ruas da aldeia pavimentada de cagalhetas, e entro na Igreja onde o escudo real é uma pedra de ara de fervorosa celebração lusitana, apetece-me assentar arraiais e ficar a ser português assim o resto da vida. Unido visceralmente à matriz por um cordão umbilical de ternura, e ao mesmo tempo desterrado, esquecido, analfabeto, civicamente impedido de ouvir, e culturalmente desobrigado de responder."


(Miguel Torga, in Diário X, pag.175)








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