Canja de Ameijoas

Receita culinária do Professor Galopim de Carvalho


É encantador ouvir o Professor falar sobre culinária Alentejana do antigamente, do tempo em que se comia o que havia, o que se podia, com moderação , sobriedade e muito respeito pelos recursos limitados e sem desperdícios.


António Galopim de Carvalho

Director emérito do Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa

Professor de Geologia e investigador na Universidade de Lisboa e Professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa



Nesse tempo, o da minha infância, nos anos 30 do século passado, ainda a minha irmã mais nova não tinha nascido, as ameijoas verdadeiras, (as de nome científico Ruditapes decussatus, Lineu 1758), mais do que quaisquer outros bivalves, eram comuns e relativamente abundantes no mercado municipal de Évora. Ao contrário de hoje, eram acessíveis, em termos de preço, entrando com frequência nas casas das famílias mais modestas, como a nossa, de pai empregado de escritório, mãe doméstica e cinco filhos, três rapazes e duas raparigas, a alimentar.


Como confecção de caldo a anteceder o prato de um almoço ou de um jantar, fazendo de sopa, a minha mãe fazia muita vezes (e eu retive na memória como se faz) canja de ameijoas.


Terrina na mesa a fumegar e a libertar o saudoso aroma a maresia, a mãe servia, primeiro, o pai, depois por ordem de idades, os filhos, a começar pelo mais velho. E só depois de me servir a mim, o mais novo, se servia a ela, já a ouvir as reclamações deste ou desta porque o irmão ou a irmã ficara com mais um ou dois “bichos” do que ele ou ela.


- Calem-se e comam. – Ralhava. – Eu não posso estar a contar as ameijoas que vão no cace. Para a próxima ficas tu com mais.


Algumas vezes, com três ou quatro ameijoas buscadas no fundo da terrina, rapidamente se conseguia a igualdade reclamada e a necessária compostura à mesa. O pai não dizia nada. Comia calado, indiferente a estes e outros desaguisados de pequena monta. Habitualmente, não intervinha nestas contendas menores. Sempre se reservou para as situações mais graves, que as houve, naturalmente, como em quaisquer famílias.


Mas voltemos à canja de ameijoas.


Receita

1 kg de ameijoas verdadeiras, vivas e bem depuradas

100 g de arroz carolino

1 L de água

1 cebola média muito bem picada

1 ou 2 pés de salsa

1 golada de azeite


Leve a água a ao lume e, estando a ferver, introduza as ameijoas.

Deixe-as abrir completamente e retire-as com a escumadeira, um ou dois minutos depois.

Retire e rejeite a salsa.

Retire os “bichos”, reserve-os e rejeite as cascas.

Volte a pôr a água ao lume, com a cebola e a salsa, tempere de sal, junte o azeite e coza o arroz.

Momentos antes de retirar do lume, retire a salsa, acrescente o miolo das ameijoas e sirva bem quente.

Se gostar adicione, no prato, umas gotas de limão.


Bom apetite


Nota 1: Cace é uma maneira muito alentejana de dizer cocha de servir a sopa.


Nota 2: Nunca experimentei confecionar este prato com mexilhão, mas vou experimentar.


A. Galopim de Carvalho




Texto do Facebook do Professor Galopim de Carvalho.

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